sexta-feira, 31 de março de 2017

A coluna adiantou e figurinista denuncia José Mayer por assédio

No dia 3 de março, a coluna publicou que José Mayer estava assediando uma figurinista da Globo. Na época, a coluna procurou a TV Globo, que emitiu a seguinte nota: "As relações entre funcionários e colaboradores da Globo se dão em um ambiente de harmonia e colaboração, de acordo com o Código de Ética e Conduta do Grupo Globo. O desrespeito no ambiente de trabalho não é tolerado pela emissora. A Globo não comenta assuntos internos".
A figurinista Susllem Meneguzzi TonaniDivulgação
Agora, toda a verdade vem à tona. Susllem Meneguzzi Tonani, de 28 anos, resolveu falar abertamente do forte assédio que sofreu do ator de 'A Lei do Amor'. O relato da profissional foi parar no blog 'Agora é que São Elas' no jornal 'Folha de S. Paulo'.
No jornal impresso, o desabafo não foi publicado. Horas depois, o link também foi retirado do ar. O jornal explicou o motivo da retirada: “A publicação foi retirada do ar porque desrespeitou o princípio editorial da Folha, de só publicar acusação após ouvir e registrar os argumentos da parte acusada. Tão logo esse feito seja sanado, o texto voltará ao ar, com o devido espaço para o contraditório”. 
Diante do extenso relato, com riqueza de detalhes, da figurinista, a coluna entrou novamente em contato com a Globo, que enciou o seguinte comunicado: "A Globo repudia toda e qualquer forma de desrespeito, violência ou preconceito. E zela para que as relações entre funcionários e colaboradores da emissora se deem em um ambiente de harmonia e colaboração, de acordo com o Código de Ética e Conduta do Grupo Globo. Todas as questões são apuradas com rigor, ouvidos todos os envolvidos, em busca da verdade. Desta forma e tendo o respeito como um valor inegociável da empresa, esse assunto foi apurado e as medidas necessárias estão sendo tomadas. A Globo não comenta assuntos internos."
Veja, abaixo, trechos do relato de Susllem:
"Eu, Susllem Meneguzzi Tonani, fui assediada por José Mayer Drumond. Tenho 28 anos, sou uma mulher branca, bonita, alta. Há cinco anos vim morar no Rio de Janeiro, em busca do meu sonho: ser figurinista.
A primeira 'brincadeira' de José Mayer Drumond comigo foi há 8 meses. Ele era protagonista da primeira novela em que eu trabalhava como figurinista assistente. E essa história de violência se iniciou com o simples: 'como você é bonita'. Trabalhando de segunda à sábado, lidar com José Mayer era rotineiro. E com ele vinham seus 'elogios'. Do 'como você se veste bem', logo eu estava ouvindo: 'como a sua cintura é fina', 'fico olhando a sua bundinha e imaginando seu peitinho', 'você nunca vai dar para mim?'.
Foram meses envergonhada, sem graça, de sorrisos encabulados. Disse a ele, com palavras exatas e claras, que não queria, que ele não podia me tocar, que se ele me encostasse a mão eu iria ao RH. Foram meses saindo de perto. Uma vez lhe disse: 'você é mais velho que o meu pai. Você tem uma filha da minha idade. Você gostaria que alguém tratasse assim a sua filha?'
Em fevereiro de 2017, dentro do camarim da empresa, na presença de outras duas mulheres, esse ator, branco, rico, de 67 anos, que fez fama como garanhão, colocou a mão esquerda na minha genitália. Sim, ele colocou a mão na minha buceta e ainda disse que esse era seu desejo antigo. Elas? Elas, que poderiam estar eu meu lugar, não ficaram constrangidas. Chegaram até a rir de sua 'piada'. Eu? Eu me vi só, desprotegida, encurralada, ridicularizada, inferiorizada, invisível. Senti desespero, nojo, arrependimento de estar ali.
Nos próximos dias, fui trabalhar rezando para não encontra-lo. O trabalho dos meus sonhos tinha virado um pesadelo. E para me segurar eu imaginava que, depois da mão na buceta, nada de pior poderia acontecer. Aquilo já era de longe a coisa mais distante da sanidade que eu tinha vivido.
Até que nos vimos, ele e eu, num set de filmagem com 30 pessoas. Ele no centro, sob os refletores, no cenário, câmeras apontadas para si, prestes a dizer seu texto de protagonista. Neste momento, sem medo, ameaçou me tocar novamente se eu continuasse a não falar com ele. E eu não silenciei.
'VACA', ele gritou. Para quem quisesse ouvir. Não teve medo. E por que teria, mesmo? José Mayer, ator da Rede Globo, é acusado de assédio
Chega. Acusei o santo, o milagre e a igreja. Procurei quem me colocou ali. Fui ao RH. Acessei todas as pessoas, todas as instâncias, contei sobre o assédio moral e sexual que há meses eu vinha sofrendo. A empresa reconheceu a gravidade do acontecimento e prometeu tomar as medidas necessárias. Me pergunto: quais serão as medidas? Que lei fará justiça e irá reger a punição? Que me protegerá e como?
Sinto no peito uma culpa imensa por não ter tomado medidas sérias e árduas antes, sinto um arrependimento violento por ter me calado, me odeio por todas às vezes em que, constrangida, lidei com o assédio com um sorriso amarelo. E, principalmente, me sinto oprimida por não ter gritado só porque estava em meu local de trabalho. Dá medo, sabia? Porque a gente acha que o ator renomado, 30 e tantos papéis, garanhão da ficção com contrato assinado, vai seguir impassível, porque assim lhe permitem, produto de ouro, prata da casa. E eu, engrenagem, mulher, paga por obra, sou quem leva a fama de oportunista. E se acharem que eu dei mole? Será que vão me contratar outra vez?
Tenho de repetir o mantra: a culpa não foi minha. A culpa nunca é da vítima. E me sentiria eternamente culpada se não falasse. Precisamos falar. Falo em meu nome e acuso o nome dele para que fique claro, que não haja dúvidas".

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